Como montar um modelo de negócios (ou reestruturar o seu)

Os 9 blocos do modelo de negócios, a ordem certa de preencher e o que muda quando a empresa já existe e precisa ser reestruturada.

Johnny Porto, fundador da Concierge Patrimonial, no escritório

Modelo de negócios é a resposta a duas perguntas: como a sua empresa gera valor e como ela ganha dinheiro com isso. Parece simples, e é. O que não é simples é responder com honestidade.

Existem dois momentos em que essa conversa acontece. O primeiro é o do empresário que tem capital e uma ideia, mas nunca estruturou nada. O segundo, mais frequente do que se imagina, é o do empresário que já tem empresa rodando há anos e percebeu que o desenho parou de fazer sentido: a margem apertou, o cliente mudou, os custos cresceram por acúmulo.

Os dois usam a mesma ferramenta. Mas o segundo preenche de um jeito diferente, e é aí que a maioria erra.

Os nove blocos

O modelo mais usado organiza o negócio em nove blocos, agrupados em quatro áreas. Vale conhecer o mapa inteiro antes de começar a preencher:

Área Bloco A pergunta que ele responde
Oferta Proposta de valor Que problema você resolve e por que escolhem você
Cliente Segmento de clientes Quem compra, e quem não compra
Canais Como ele descobre, compra e recebe
Relacionamento Como você conquista, atende e mantém
Infraestrutura Atividades-chave O que a empresa precisa fazer bem feito
Recursos principais Pessoas, equipamento, tecnologia, capital
Parceiros-chave De quem você depende para entregar
Finanças Estrutura de custos Para onde o dinheiro vai
Fontes de receita De onde o dinheiro vem

Para preencher em formato digital, o Sebrae Canvas é gratuito e resolve. Mas papel e caneta funcionam igual, e às vezes melhor.

A ordem que funciona

O erro mais comum é começar pela proposta de valor, porque é o bloco mais bonito de preencher. Só que ele depende dos outros, e quem começa por ali costuma escrever uma frase de marketing em vez de uma definição de negócio.

A sequência que funciona é esta:

  1. Segmento de clientes. Antes de dizer o que você entrega, defina para quem. E defina também quem não é seu cliente, o que é ainda mais revelador.
  2. Fontes de receita. Como o dinheiro entra: venda pontual, recorrência, mensalidade, comissão. O tipo de receita define o negócio inteiro.
  3. Proposta de valor. Agora sim, com público e forma de cobrança definidos, dá para escrever o que você resolve.
  4. Canais e relacionamento. Como chega até ele e como você mantém a relação viva.
  5. Atividades, recursos e parceiros. O que precisa existir para entregar o que foi prometido.
  6. Estrutura de custos. Por último, porque só agora você sabe o que a operação realmente exige.

Ao final, some receita menos custo. Se não sobra nada, o modelo não está pronto, está apenas desenhado.

Reestruturar é diferente de criar

Aqui está o ponto que separa os dois cenários, e a instrução mais importante deste texto.

Quem está criando preenche o quadro com o que pretende fazer. Quem está reestruturando precisa preencher com o que a empresa é hoje, não com o que gostaria de ser. E isso dói, porque quase sempre aparecem três coisas desconfortáveis:

  • Clientes que não são o público que você diz atender. A empresa fala com um perfil no material de venda e fatura com outro.
  • Receita concentrada em algo que você não escolheu. Um produto secundário virou o principal sem ninguém decidir isso.
  • Custos que ninguém aprovou. Assinaturas, contratos e pessoas que entraram por acúmulo e nunca foram revistos.

Por isso a recomendação prática: faça dois quadros. Um do modelo atual, preenchido com números reais dos últimos doze meses, e outro do modelo desejado. A diferença entre os dois é o seu plano de reestruturação, com nome e prazo.

Quadro único, preenchido com intenção, vira exercício de otimismo.

Os blocos que o empresário mais subestima

Fontes de receita

Não basta listar de onde vem o dinheiro. É preciso saber o peso de cada fonte. Se três clientes respondem por 60% do faturamento, você não tem um modelo de negócio, tem três contratos. Concentração muda a natureza do risco, tema que tratamos no Mapa de Exposição PJ+PF.

Vale também separar receita recorrente de receita pontual. Empresa com recorrência alta vale mais, negocia melhor com banco e dorme melhor.

Estrutura de custos

O bloco onde mora a verdade. Duas separações que mudam a leitura:

  • Fixo e variável. Custo fixo alto significa que o negócio precisa de volume para respirar. Custo variável alto dá flexibilidade, mas aperta a margem.
  • Custo do sócio. Pró-labore, retirada, despesa pessoal que passa pela empresa. Modelo que ignora esse bloco parece saudável no papel e não fecha na conta bancária.

Esse último ponto é o que mais vejo faltar. O modelo de negócios costuma ser desenhado como se o dono não existisse, e depois a empresa não sustenta a vida dele. O salário ideal do empresário precisa estar dentro do modelo, não fora.

Três erros que aparecem sempre

  1. Confundir modelo com plano de negócios. O modelo cabe em uma página e responde como o negócio funciona. O plano é o documento longo, com projeções e detalhamento. Comece pelo modelo.
  2. Preencher sozinho. Quem opera vê coisas que o dono não vê. Uma rodada com duas ou três pessoas da equipe muda a qualidade do resultado.
  3. Deixar o quadro na gaveta. Modelo é ferramenta de decisão, não peça de parede. Revise a cada seis meses, e sempre que entrar cliente grande, sócio novo ou linha de produto.

Como o Método Concierge trabalha esse ponto

Nossa metodologia opera em quatro camadas conectadas: Auditoria de Acesso, Arquitetura de Acesso, Inteligência de Ativação e Governança Patrimonial.

Na Auditoria, montamos o quadro do modelo atual com número, não com percepção: composição real da receita, concentração de clientes, custo fixo e variável, e quanto o sócio consome da operação.

Na Arquitetura, desenhamos o modelo desejado e a ponte entre os dois, sempre com a vida financeira do sócio dentro da conta. Reestruturar a empresa sem calibrar a retirada é meio trabalho.

Na Governança, acompanhamos a transição para confirmar se o modelo novo está entregando o que prometia. Esse escopo contínuo é o do plano Access Rise.

Onde encontrar mais contexto

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre modelo de negócios e plano de negócios?

O modelo cabe em uma página e mostra como o negócio funciona e ganha dinheiro. O plano é o documento completo, com pesquisa de mercado, projeções e detalhamento operacional. O modelo vem primeiro e costuma bastar para decidir.

Minha empresa já existe. Preciso montar um modelo?

Toda empresa tem um modelo, mesmo que nunca tenha sido escrito. Colocar no papel serve justamente para enxergar o que foi acontecendo sem decisão, e é o passo inicial de qualquer reestruturação.

Quanto tempo leva para preencher?

A primeira versão sai em uma ou duas horas. A versão com números reais leva mais, porque exige levantar composição de receita e custo, que raramente estão prontos.

Posso ter mais de um modelo na mesma empresa?

Pode, e é comum quando há linhas de negócio diferentes. Nesse caso vale um quadro por linha, porque cada uma costuma ter cliente, canal e margem próprios, mesmo dentro do mesmo CNPJ.

Com que frequência devo revisar?

A cada seis meses, e sempre que houver entrada de cliente relevante, mudança societária, lançamento de produto ou alteração grande de custo.

Como fazer isso com apoio?

Pela reunião diagnóstico. Montamos o quadro do modelo atual com os seus números e apontamos onde o desenho está travando o resultado.

Em uma frase

Modelo de negócios não é exercício de startup, é a fotografia honesta de como a sua empresa ganha dinheiro. Quem desenha o modelo real antes de desenhar o ideal descobre que boa parte da reestruturação é decidir o que já estava acontecendo sem decisão.

Clareza é poder. Poder é acesso.